No momento em que se anuncia que
a Hungria criminaliza a ajuda aos migrantes sem papéis e que Salvini continua a incitar à violência, convém recordar onde estamos e de onde vimos. O objectivo não é minimizar o inaceitável nem caucionar o que os “moderados” fazem, mas antes aproveitar os exemplos mais grotescos para lembrar que “o fascismo é uma minhoca que se infiltra na maçã, ou vem com botas cardadas ou com pezinhos de lã”.
Em França, há uma lei similar à que os húngaros aprovaram agora e que é aplicada com relativo afinco, demonstrado no processo lançado contra um agricultor da zona alpina: Cédric Herrou.
Cédric Herrou ajuda pessoas que tentam chegar a França, por exemplo, acudindo a 50 pessoas (insisto no termo) oriundas do Sudão e da Eritreia para que pernoitassem numa estação de caminhos de ferro abandonada na zona de fronteira com a Itália. Herrou (e pelo menos mais duas pessoas) foi preso e julgado várias vezes, condenado a oito meses de pena suspensa, a multa de 3.000€ ou, já este ano, a passar duas noites na cadeia até o libertarem sem acusação formada. Tudo por exercitar a humanidade (a parte boa do conceito) e a consciência.
Ao mesmo tempo, enquanto outros activistas passaram o inverno a tentar salvar quem arrisca a vida na neve alpina por a vida ser, de facto, a última coisa que lhe resta, os criminosos da extrema-direita vão organizando distintas acções cujas consequências passam também, pela morte dos migrantes. A diferença de tratamento que as autoridades do hexágono reservam a uns e outros falam por si. E a nova lei de asilo que a maioria e o governo francês se preparam para aprovar apenas reforça a percepção dos migrantes como delinquentes e não como indivíduos da mesma espécie.
Esta arrogância de privilegiado não é, na essência, diferente da que manifesta Salvini. A sordidez está em apresentar-se como boa consciência em oposição aos grunhidos primários da extrema-direita assumida, embora incorpore na máquina do Estado os mesmos óleos infectos, a mesma peçonha. É óbvio que o governo francês não incita a populaça a negar o estatuto de pessoa a quem cometeu a falta gravíssima de ter nascido noutro país, mas inscreve o princípio na lei. Exactamente como Valls e outros inscreveram o “estado de emergência” no quotidiano constitucional. De tal forma que basta que o bom ministro na altura certa queira aplicar a lei até às últimas consequências para transformar o hexágono num espaço em que os gestos de cada um serão registados com mais rigor e afinco que na Alemanha de Leste.
É urgente erguer a dignidade contra todas as medidas que renegam abertamente a humanidade na Áustria, na Hungria, na Polónia, em Itália (começam a ser muitos, não?) mas para reverter a situação talvez não fosse mal começar a raspar a capa lãzuda dos falsos democratas que nos governam para lhes destapar a biqueira de aço das botas.
Entretanto, nada a ver com isto, Macron e Merkel avançaram com os acordos para desenvolver o avião militar e o carro de combate do futuro. Para assegurar a soberania estratégica da Europa, dizem.